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domingo, 20 de janeiro de 2013

A nuvem e o atlas


A melodia transcendental passou da tela para o meu espírito e enquanto eu andava de volta para casa, ela me envolvia de uma forma sutil e confortadora: a verdade verdadeira. Sabia que quando alguém diz que tem a verdade, na verdade, ela quer dizer que tem um milhão de perguntas a serem respondidas e que não poderão ser respondidas nessa vida e talvez nem na outra.

Mas algo havia silenciado dentro de mim, só para que aquela melodia pudesse ter espaço para ecoar e dançar e se expandir. Uma brisa leve soprava o mensageiro do vento, tornando a canção ainda mais real para os meus ouvidos humanos. Mas eu sabia que era mais além, do corpo e da alma, quem sabe até de outro mundo.

E a verdade verdadeira é que ninguém nunca sabe a ligação que tem com outras pessoas enquanto está vivendo ao lado delas, é preciso um terceiro olho distante para analisar e perceber quão longa é a esse elo e de que forma a sua atitude e escolhas pode influenciar no seu futuro. O seu presente é exatamente aquilo que você escolheu no passado, por meio de pequenas escolhas e detalhes que para o instante parecem insignificantes.

“Ser, é ser percebido. E assim, para conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos do outro. A natureza de nossas vidas imortais está nas conseqüências de nossas palavras e ações, que vão, e estão se esforçando a todo instante.” (Sonmi-451 em A Viagem)



Ver tantas vidas entrelaçadas me fez pensar na minha própria vida e nas ligações fortes que tenho com tantas pessoas, algumas vem, mas passam e seguem o seu caminho longe de mim, outras vêm e ficam durante algum tempo e há ainda as que permanecem. Todas as pessoas que cruzam o nosso caminho têm uma espécie de carma conosco e nós temos com elas. E é exatamente a nossa atitude perante a vida que faz esse caminho ser como merecemos. Ninguém é totalmente ruim e nem totalmente bom, temos os dois lados, mas precisamos decidir qual deles alimentar e fortalecer.

De provas e expiações a regeneração, aquele momento que temos que escolher qual lado seguir. E esse caminho não será fácil, bem como todos aqueles que precisam ser trabalhados e aperfeiçoados. Mas o céu estará azul e o ainda haverá o canto dos pássaros se você souber ouvir. E as palavras curarão o mundo como sempre sonhou.

Sim, a melodia ainda avançava e fervia em seu peito, os acordes tinham ganhado o espaço e seguia adiante, pronta para encher o coração de outra pessoa e inspirá-la da mesma forma que fez com você.  Nem todos compreenderão de pronto, talvez seja preciso ver e rever muitas vezes para absorver a mensagem e a essência, mas o ritmo encantador deixará o seu corpo flutuando de volta para casa e onde toda e qualquer emoção precisará ser expressa de pressa, antes que a sensação se perca no meio das distrações mundanas.

E seu sorriso será solidário e haverá generosidade em seu coração, porque mais uma vez estava comprovado pela arte, e a discussão ganhará os corredores dos palácios, das escolas e das comunidades carentes. Há vida lá fora e em outras dimensões e em todos os lugares. Há vida em tudo. E sua ação de hoje influenciará em todo o mundo. Porque você pode ser uma gota em um oceano enorme, mas são de milhões de gotas que o oceano é formado. 

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Você acredita em milagres?


Para quem procura uma leitura agradável  e uma companhia inseparável para uma viagem longa ou uma tarde preguiçosa, a primeira edição traduzida para o português de Morte e Vida de Charlie St. Cloud é perfeita. À primeira impressão e, talvez uma insensível, a história parece leve e despretensiosa, quase adolescente. porém, não é o que se concluí após uma reflexão das 304 páginas deste livro.

Antes de conquistar a crítica que elevou Morte e Vida de Charlie St. Cloud como best-seller nos Estados Unidos e estar na lista dos mais vendidos do The New York Times, o jornalista Ben Sherwood, formado nas Universidades de Harward e Oxford, começou a carreira na ABC News em Nova York e hoje é produtor executivo da NBC. Sherwood já recebeu o Emmy pela cobertura da guerra em Kosovo, e o prêmio Edward R. Murrow, pela edição de notícias. Atualmente, mora em Nova York e escreve seu segundo romance.

A história que o consagrou como escritor, começa em uma pacata vila de pescadores da Nova Inglaterra, onde o jovem Charlie St. Cloud resolve trabalhar no cemitério em que Sam, seu irmão mais novo, morto em um acidente de carro, está enterrado. Charlie foi o único sobrevivente do acidente e recebe o dom de ver  e conversar com o espírito de Sam. Para ficar mais perto de seu irmão, ele deixa seus sonhos para trás e abdica de viver sua vida de forma completa. No entanto, a chegada de Tess Carol, uma mulher independente que está treinando para navegar sozinha ao redor do mundo em um veleiro, neste mundo tão particular, os obriga a fazer escolhas.



Com uma lição de fé e desapego, esta é uma obra que nos faz refletir sobre a ordem das coisas e a razão para que elas aconteçam. É impossível não se emocionar com o desenrolar de uma trama bem feita e detalhada, ainda mais quando ela traz considerações tão particulares. Até que ponto você está disposto a se desapegar de seu passado e sua culpa? E quão fundo você quer chegar para descobrir um pouco mais sobre si mesmo?

 Às vezes a vida nos coloca naquela situação que é preciso fazer alguma coisa, sair da zona de conforto, enfrentar a realidade e assumir a missão que nos é dada. Mais do que entretenimento St. Cloud carrega nossas dúvidas, inseguranças e angústias da vida, mas principalmente, joga em nosso colo aquela pergunta que está além do pensamento racional e dos olhos humanos: Você acredita em milagres?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Batalha de Argel

"Começar uma revolução é fácil, difícil é continuá-la e mais difícil ainda é vencê-la", essa é uma das frases de A  Batalha de Argel. Baseado em fatos reais e com a fotografia envolvente de Marcello Gatti, a obra de Gillo Pontecorvo carrega o peso político das vivências de seu próprio diretor. O falecido cineasta italiano, nascido em Pisa, emigrou para Paris no período da ditadura fascista de Mussolini. Passou a fazer contato com a resistência italiana, e se filiou ao Partido Comunista em 1941. Mesmo graduado em química, trabalhou como jornalista e dirigiu a revista comunista quinzenal "Pattuglia" (Patrulha).

A partir dos anos 50, dedicou-se ao cinema, dirigindo documentários. Sua estreia na ficção foi com Giovanna, episódio do filme Die Vind Rose, (1954) sobre uma operária da indústria têxtil. Dirigiu também A Grande Estrada Azul (1957), Kapò (1959), Queimada! (1969), Ogro (1980), O adeus a Enrico Berlinguer (1984), Firenze, il nostro domani (2003). Entre 1992 a 1996, Pontecorvo foi o diretor do Festival de Cinema de Veneza.

Em 1965, foi a vez de A Batalha de Argel. O filme se passa na cidade de Argel, na Argélia. entre 1954 a 1962, durante  o período de transição entre o colonialismo francês e a independência argeliana. Uma cidade que se divide  entre a Casbah e o bairro europeu, mas essa divisão não é só territorial, ela é principalmente cultural, já que a Argélia sofre com o colonialismo francês há 130 anos.

É neste cenário de conflito que nasce o grupo de resistência FLN (Frente de Libertação Nacional) com os chefes Omar Ali ( Ali La Poente), Jaffar, Ramel e Si Murad. Mostrando as ações de ambos os lados, o filme apresenta todas as formas de violência disponíveis em uma época de conflito, sejam os métodos de tortura e prisão, como os de atentados a civis.


Sem eleger nenhum personagem como principal, a obra resolve dar um panorama quase documental dos chefes envolvidos, tanto os "cabeças" da organização clandestina, como o experiente Coronel Mathieu, escolhido especialmente para "lidar" com o conflito. 

Os 117 minutos e a imagem bem antiga de A Batalha de Argel pode cansar um pouco, principalmente na primeira parte em que os personagens e o contexto é apresentado. Porém, do meio para o final, os paralelos com a nossa própria história e com os conflitos contemporâneos prendem mais a atenção, levando os espectadores a uma reflexão real de que o cinema não tem tempo de validade.

A Batalha de Argel venceu o Grande Prêmio do Festival de Veneza, além de ter sido indicado a três Oscars, como melhor roteiro original, melhor diretor e melhor filme estrangeiro.

Ficha Técnica:
A Batalha de Argel (La Battaglia di Algeri, Argélia/Itália, 1965 - Casbah Films e Igor Film)
Longa-metragem, 117 min.Direção: Gillo Pontecorvo; Roteiro: Gillo Pontecorvo e Franco Solinas
Música: Ennio Moricone e Gillo Pontecorvo; Fotografia: Marcello Gatti
Elenco:  Brahim Haggiag, Jean martin, Yacef Saadi, Samia kerbash, Ugo Paletti, Fusia El Kader, Mohamed Ben Kassen.