terça-feira, 20 de agosto de 2013

O grito

Silenciei por muito tempo, mantive o seu e o meu silêncio esquecidos na correria do tempo, na loucura da rotina e me habituei a ele. Me acostumei ao seu sorriso vazio e aos seus olhos embaçados, e mantive o manto de silêncio entre nós, até que ele não me ferisse mais. Me tornei grata por ele, porque a ausência de som abriu espaço para que a música da vida entrasse e permitisse que a voz mais importante de todas fosse novamente ouvida.  E um silêncio se sobrepôs ao outro, me preparando para as despedidas e as chegadas que logo vieram.

As malas e as caixas de papelão se encheram de palavras, histórias, passado e futuro. Haviam sempre beijos, até logos e nos vemos em breve, carregados de arrependimentos. A liberdade e a independência, afinal, tinham o seu preço pago em moedas de silêncio, à prestação de sorrisos, mas com juros altos de saudades.

Mesmo depois de tanto silêncio, algumas palavras voltaram a revisitar minha mente, meus lábios e minha caneta, se unindo ao ar que resolveu retornar aos pulmões. Mas elas vêm diluídas, como um floral de Bach, com poder curativo a longo prazo. E das palavras com ausência de som brotou um grito contra a falta de cor, e o mundo cinza se tornou um furacão de cores vivas e cheias de significados.


Me senti como alguém que abriu os olhos pela primeira vez e enxergou as cores, as formas e as belezas naturais, como alguém que ouviu pela primeira vez uma melodia e o canto de um passado, como alguém que sentiu pela primeira vez o ar entrando em seus pulmões e o perfume das flores.

A vida que a gente adia para depois daquela compra, daquele emprego, da faculdade ou da aposentadoria, surge em uma manhã qualquer e te cobra sorrindo irônica. Porque aquele compromisso já foi cumprido, o emprego te chamou, a aposentadoria chegou e o diploma da faculdade está pronto. Mas como uma mania, procuramos adiar mais uma vez a vida que deveríamos estar vivendo. Só que ela não desiste e me chama sutilmente para dançar, para pintar, para cantar, para escrever ou para andar de skate.

A vida grita com você e comigo, e me joga pra fora da cama...


“Chega de Silêncio!”


domingo, 27 de janeiro de 2013

Silêncio


O silêncio era ensurdecedor, mas eu preferia a sua companhia a qualquer outra conversa trivial. Ele tem se mostrado um bom ouvinte, porque quando nossa boca se cala, a mente e o coração se manifestam. Era possível ouvir os meus anseios, temores e ao mesmo tempo encontrar conforto e palavras amigas.

Naquela noite, até o mundo tinha silenciado, não havia as vozes dos ventos, o canto dos pássaros, o grito irritante das ambulâncias e viaturas. Não havia brigas ou o som de passos apressados, nem mesmo o barulho de asas ou patas de insetos que insistem em querer passar pela janela nos dias de calor. Não havia nada, apenas eu e o silêncio.

E ele resolveu me acompanhar durante o dia seguinte, de uma forma estranha, minha voz tinha perdido a força e eu já não a reconhecia mais. Mas a necessidade do meu silêncio, não significava ou explicava o seu. Permaneci na ignorância das palavras não ditas e das perguntas sem resposta.


Minha vida estava mudando, havia tanta coisa por vir e todo o seu interesse tinha sumido de uma hora para outra. E também havia tanta coisa que eu queria saber de você, mas naquele momento, havia um manto espesso de silêncio, um abismo ao invés de uma ponte. Seu rosto sem expressão, emoção ou um simples sorriso, tudo tinha desaparecido junto com o brilho nos seus olhos. E os abraços calorosos e sinceros, que esperava depois de tanto tempo, não vieram...

No entanto, como dizem, o tempo é o melhor conselheiro e remédio, e dessa forma, permiti que o silêncio ali permanecesse, dentro de mim e entre nós. E por mais solitário que fosse, o silêncio acabou por preencher os espaços ocos que haviam.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A nuvem e o atlas


A melodia transcendental passou da tela para o meu espírito e enquanto eu andava de volta para casa, ela me envolvia de uma forma sutil e confortadora: a verdade verdadeira. Sabia que quando alguém diz que tem a verdade, na verdade, ela quer dizer que tem um milhão de perguntas a serem respondidas e que não poderão ser respondidas nessa vida e talvez nem na outra.

Mas algo havia silenciado dentro de mim, só para que aquela melodia pudesse ter espaço para ecoar e dançar e se expandir. Uma brisa leve soprava o mensageiro do vento, tornando a canção ainda mais real para os meus ouvidos humanos. Mas eu sabia que era mais além, do corpo e da alma, quem sabe até de outro mundo.

E a verdade verdadeira é que ninguém nunca sabe a ligação que tem com outras pessoas enquanto está vivendo ao lado delas, é preciso um terceiro olho distante para analisar e perceber quão longa é a esse elo e de que forma a sua atitude e escolhas pode influenciar no seu futuro. O seu presente é exatamente aquilo que você escolheu no passado, por meio de pequenas escolhas e detalhes que para o instante parecem insignificantes.

“Ser, é ser percebido. E assim, para conhecer a si mesmo só é possível através dos olhos do outro. A natureza de nossas vidas imortais está nas conseqüências de nossas palavras e ações, que vão, e estão se esforçando a todo instante.” (Sonmi-451 em A Viagem)



Ver tantas vidas entrelaçadas me fez pensar na minha própria vida e nas ligações fortes que tenho com tantas pessoas, algumas vem, mas passam e seguem o seu caminho longe de mim, outras vêm e ficam durante algum tempo e há ainda as que permanecem. Todas as pessoas que cruzam o nosso caminho têm uma espécie de carma conosco e nós temos com elas. E é exatamente a nossa atitude perante a vida que faz esse caminho ser como merecemos. Ninguém é totalmente ruim e nem totalmente bom, temos os dois lados, mas precisamos decidir qual deles alimentar e fortalecer.

De provas e expiações a regeneração, aquele momento que temos que escolher qual lado seguir. E esse caminho não será fácil, bem como todos aqueles que precisam ser trabalhados e aperfeiçoados. Mas o céu estará azul e o ainda haverá o canto dos pássaros se você souber ouvir. E as palavras curarão o mundo como sempre sonhou.

Sim, a melodia ainda avançava e fervia em seu peito, os acordes tinham ganhado o espaço e seguia adiante, pronta para encher o coração de outra pessoa e inspirá-la da mesma forma que fez com você.  Nem todos compreenderão de pronto, talvez seja preciso ver e rever muitas vezes para absorver a mensagem e a essência, mas o ritmo encantador deixará o seu corpo flutuando de volta para casa e onde toda e qualquer emoção precisará ser expressa de pressa, antes que a sensação se perca no meio das distrações mundanas.

E seu sorriso será solidário e haverá generosidade em seu coração, porque mais uma vez estava comprovado pela arte, e a discussão ganhará os corredores dos palácios, das escolas e das comunidades carentes. Há vida lá fora e em outras dimensões e em todos os lugares. Há vida em tudo. E sua ação de hoje influenciará em todo o mundo. Porque você pode ser uma gota em um oceano enorme, mas são de milhões de gotas que o oceano é formado. 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

A caixa

Ouvir um “Parabéns para você” pouco antes da ceia de Natal é estranho, ainda mais quando ninguém que você conhece  faz aniversário no dia 25 de dezembro, mas para compensar todos os fim de semana longe da casa dos meus pais, eles sempre dão um jeito de surpreender.


Aquela tinha se tornado uma tradição, não exatamente uma tradição, já que tinha acontecido só com a minha irmã, mas mesmo assim, a tradição da Caixa tinha chegado até mim. Uma vez formada, não exatamente, porque estava longe de receber meu diploma, a Caixa dos Significados era o presente de uma etapa importante de nossas vidas, e uma espécie de missão cumprida na educação dos filhos. Depois da ideia da minha mãe, muitas de suas amigas, já planejavam a Caixa para seus respectivos filhos.

Era um diploma de adulto, agora você está “criado e vacinado” e pode seguir o seu caminho. Eu e minha irmã já tínhamos seguido nosso próprio caminho há muito tempo, pois deixamos de morar na casa dos meus pais uns dois anos antes de terminar o curso superior, motivadas sempre pelo nosso desejo de liberdade, mudança e empregos.


Mas certamente, de todos os presentes que eu poderia ganhar, aquele era de longe o melhor presente de Natal que eu recebi. Porque naquela Caixa estava representada a minha vida e todas as coisas importantes nesses 22 anos.  A primeira roupa e os sapatinhos; a pulseira da maternidade; os primeiros cadernos da escola; a cópia de todos os cartões de aniversário, natal e dia das mães que escrevi; a boneca de pano; a xícara; o patinador; o livro; a coruja; a pena; a chave; a taça; o laço... Cada pedacinho de mim estava guardado e embrulhado em fitas e tecidos. Era a minha própria cápsula do tempo.

É impossível não se emocionar, não deixar o nariz vermelho, os olhos embaçados e uma vontade enorme de abraçar todo mundo, quando toda a sua trajetória transborda de dentro de uma caixa E quando você recebe o certificado de ser humano “criado e vacinado” das mãos trêmulas de sua mãe, ele vale mais do que o diploma de Jornalista e o peso do capelo. Porque nenhum presente do mundo poderia ter um significado maior do que deixar sua mãe orgulhosa.

Esse é o tipo de presente que quero dar para os meus filhos e eles aos deles, e a tradição da Caixa poderá permanecer na nossa família, nos lembrando dos verdadeiros valores da vida, da família e do Natal.

O cantor


E as manhãs eram muito parecidas, antes das 10 era impossível escrever alguma coisa ou raciocinar, a mente ainda dormia tranquila em sua própria sonolência. Tudo parecia devagar, mas era nas primeiras horas da manhã, entre o bom dia e as primeiras palavras escutadas, que a magia acontecia, bem ali sob minha janela.

Enquanto o escritório era impessoal, a luz, artificial e o som que predominava era o telefone, que insistia em tocar antes mesmo de poder ouvir a própria voz, lá fora a vida acontecia. Pássaros voavam, as árvores se esticavam preguiçosamente para receber os primeiros raios de sol, a grama reluzia a manhã e o jardineiro cantava. Alguns reclamavam de sua cantoria matinal, outros o ignoravam, mas o único pensamento que vinha a mente era: “Como ele é feliz!”. Havia ali até um tom de inveja: “Ele vai viver cem anos desse jeito...”.

Toda manhã, um senhor roliço e simpático passava o dia entre as plantas, cortava, limpava, aparava, reposicionava uma planta ali, outra flor aqui. No início, não me sentia muito confortável quando descansava quase em meditação no banco do jardim na hora do almoço, afinal ele sempre estava por ali observando. Mas com o tempo, me acostumei com sua presença quase etérea e agora, enquanto tento buscar uma inspiração entre notícias, palavras alheias e imagens bonitas, ele está sempre ali, cantando feliz e alegre, enquanto executa seu trabalho, que faz sem pressa, no seu próprio tempo e da natureza.


Lá fora é o seu lugar e onde se sente à vontade. Em dias de chuva, ele até cuida dos jardins de inverno, mas não se ouve sua cantoria pelos corredores. Algumas vezes já tentei prestar atenção na letra de suas canções, e uma delas, deve ser sua preferida, é uma espécie de louvor a Deus, quase um agradecimento diário por trabalhar em local tão lindo.

A área verde em que os prédios da empresa estão é enorme. Um morro às margens da represa cercado de altos pinheiros, uma propriedade com poucas construções, em que o verde predomina. Nem parece real, mais se assemelha a um mundo a parte, longe das cidades e até da realidade, com seu tempo e sua própria meteorologia, pois quando chove lá faz sol e quando faz sol, lá chove e muitas vezes nos perdemos em meio à neblina, que chega de repente. Brinco que aquele morrinho verde é o play ground de São Pedro.

Da sala sem cor, tento aos poucos trazer um pouco da natureza lá de fora, na minha mesa resistem duas mudinhas de plantas em um terráreo, que me lembram sobre a vida e a necessidade do contato com a natureza.

Gosto de imaginar que o jardineiro lá fora tem lá seus problemas, como qualquer outro ser humano, mas sem a pressão e estresse de um cotidiano cheio de tecnologias, ele vive mais feliz e poderia viver nesse espaço verde e enorme durante muitos bons anos. Ele aparenta estar beirando a meia-idade, mas seu rosto redondo e corado esbanja mais saúde do que todos os quase vinte jovens que trabalham na sala com vista para o jardim.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Liberdade


Era como se me permitissem respirar novamente, e meu peito se enchia de novos ares, novas oportunidades e possibilidades. Um peso enorme tinha saído das minhas costas e o meu peito não estava mais segurando o choro, pedindo para aguentar firme e não sucumbir ao cansaço. As tão esperadas lágrimas de alívio tinham vindo, junto com uma multidão de abraços orgulhosos. Um dia, é claro, não foi o suficiente para cair a ficha de que tudo tinha acabado, que era possível a partir de agora viver a vida que eu sempre quis e esperei. Mas que vida era essa?
No dia seguinte, do dia mais esperado de todo o ano, me dei um presente: um colar com um pingente de asa, era uma única asa negra com pequenos pontos brilhantes. De alguma forma, aquela forma se encaixava perfeitamente no momento que eu estava vivendo, mas principalmente, na fase que se iniciava a partir daquele dia. A sensação de dever cumprido tinha tomado conta de mim.

Desde pequena minha mãe sempre dizia, que nos criava para sermos independentes, por isso tínhamos que aprender a cozinhar, andar sozinha, pedir informação, literalmente, se virar. Os passos eram simples: aprender a cuidar de uma casa, estudar e tirar boas notas, ter uma profissão, aprender a lidar com o dinheiro e seus gastos. Todas as essas pequenas lições tinham o objetivo de nos colocar as asas necessárias para voar e buscar os nossos próprios horizontes.
Depois de obstáculos e dificuldades, a maratona tinha se tornado uma caminhada para aproveitar a paisagem que se descortinava à minha frente. E no ano, que dizem ser o fim, para mim é o começo. As asas, que foram plantadas, já estão vastas e alçando voos aos poucos, e mesmo com o frio na barriga, elas me levarão a novas aventuras. Sempre sonhei com elas, e agora, a menina que esperava crescer para voar, agora vive seu próprio futuro: formada, empregada, independente e livre!

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Onde mora a felicidade


Já a visitei inúmeras vezes, acho que até já perdi as contas, mas sempre é bom estar aqui de novo. No começo, espiava rapidamente pela janela, mas não entrava. Depois, fui convidada a entrar e passava algumas tardes gostosas em sua companhia, mas não me aproximava muito com medo de que ela se ofendesse.  Com o tempo, perguntei se ela me deixaria ficar um pouco mais, nessas horas adormecia em seu colo, onde encontrava consolo depois de tanto chorar.

Passei um tempo sumida e apesar das cobranças dela, não dei notícias nem fiz uma visitinha rápida durante um bom número de meses – ou será que foram anos? -, de qualquer forma, ela sempre deixou a porta aberta. 

Quando precisei voltar, pedi mil desculpas e inventei outras mil histórias por ter ficado longe. Ofereci meu dinheiro, meu cartão de crédito e minha conta bancária, em troca de sua companhia. Comprei-lhe presentes e mimos para que ela não me deixasse, mas ela não aceitou.  Brava, disse que não tinha preço e não podia ser comprada. E pediu que eu não aparecesse mais lá, enquanto não me lembrasse dos motivos que a fizeram me deixar entrar em sua casa.



Foi então que comecei a perceber todas as coisas que não tinham preço, e de uma forma incrível me transportavam de volta à sua porta. Depois de algum tempo, enquanto tentava me ocupar de coisas que pudessem me levar até sua casa, descobri certo dia, que ela não estava mais lá, tinha se mudado e nem ao menos tinha deixado um bilhete.

Me senti abandonada e comecei a chorar ali mesmo em seu portão, até que alguém atrás de mim me tocou o ombro. Era ela sorrindo com uma mala na mão, pronta a me acompanhar aonde quer que eu fosse. Desde esse dia, nunca mais me abandonou. Somos amigas e companheiras de viagem. Ela resolveu passar uma temporada em minha casa e não quis mais sair. Sorte a minha!

domingo, 30 de setembro de 2012

Uma mão



O dia e a noite se misturavam ao som de músicas velhas e conhecidas que a faziam companhia. Entre vitaminas e florais, ela tentava se manter acordada e viva para enfrentar mais um dia sem saber direito o que fazer, mas com a consciência de que uma pilha de pendências a esperava, em qualquer lugar. Não era possível fugir de tudo ou se esconder dos problemas, em algum momento, eles sempre a encontravam.

Mas ela estava com as pernas doendo de tanto correr, tudo o que precisava era se equilibrar com uma única perna no chão, abrir os braços e buscar um ponto fixo, logo a sua frente, em que pudesse confiar e que não se movesse, e que permanecesse sempre ali. Para conseguir, a sua concentração precisava ser total, nada ao redor poderia distrair.  Dessa forma, era possível até esquecer que apenas um pé está no chão e todo o resto do corpo está flutuando no ar. Mesmo assim, só aquele pequenino ponto a manteria em equilíbrio. E ele poderia ser qualquer coisa. Poderia ser qualquer um. Que simplesmente não a deixasse cair. 



Perdida em papéis e textos, ela buscava uma mão que a resgatasse. Que a chamasse para dançar mesmo estando de pijamas e descabelada. Que a fizesse companhia no sofá, enquanto escreve sem parar. Algo ou alguém que lhe devolvesse as cores e o rubor. Que lhe deixasse respirar, não que lhe tirasse o fôlego. Que a abraçasse e não que a sufocasse.  Um ponto fixo em que encontrasse o equilíbrio que tanto precisa.


Depois de tantos anos, a menina tinha se cansado da estrada longa, dos passos errantes, do pensamento sem parada. Queria a calma, o silêncio, o andar vagaroso e compartilhado, em que pudesse aproveitar a paisagem. Uma caminhada ao invés de uma maratona, que a inspirasse e que a enchesse de palavras. Porque finalmente tinha percebido que sem palavras, ela não era nada. 


domingo, 8 de julho de 2012

Branco


Fotos inspiradoras, comidas apaixonantes, histórias emocionantes... Aquela página em branco, pronta para se enfeitar de palavras e traços.

Mas a máquina fotográfica já não funciona mais, as paisagens bonitas perdem a chance de se tornarem eternas, se perdem na lembrança de um momento. A página em branco permanece em branco, as palavras sumiram e não há mais imagens para desenhar.

A mão enfraquecida apenas dói com o movimento repetitivo e o corpo deixa de existir com a rotina que se acumula.  A mesma paisagem, o mesmo dia, as mesmas pessoas. A alma se desmancha perdida em um mundo que não lhe pertence e esquecida de quem é. A mente se inquieta e enlouquece.

E quando chegamos à loucura, quando toda a razão já se foi, é a hora de fechar os olhos viciados, recolher a alma desmanchada e encontrar o corpo humano. O ser-máquina ainda luta com a sensibilidade do espírito, mas ele se cansa facilmente e agora está jogado em um canto, abandonado e sem forças.



Depois de meses vivendo quase no piloto-automático, era preciso parar e respirar, para lembrar que ainda estava viva. Quando paramos e esquecemos a loucura da vida na Terra, é preciso lembrar quem costumávamos ser, o que costumávamos sonhar. E o grito da arte ecoa pelos corredores. Afinal, a arte é a expressão da alma.  Faxina, da casa, do corpo e da alma. É preciso um tempo de reabilitação!

Estou fechada para balanço, é tempo de jogar fora o que não serve mais, renovar as cores, o cabelo, as bijuterias, as roupas e os pensamentos.  Achar a inspiração em algum lugar no mundo lá fora ou aqui dentro.
Reencontrar a garota dos laços e brincos delicados, a menina do rock e das roupas estilosas, até a moça meio hippie, cheia de teorias e meditações.

Voltar às palavras é difícil, aos traços é pior ainda. Mas os primeiros passos já foram dados. As  páginas em branco começam a ser preenchidas...


quinta-feira, 29 de março de 2012

Abstinência

Não me lembro quando foi a última vez que escrevi, só sei dizer que voltei, de algum lugar que não sei dizer o nome. Mas que me levou a ficar sem me sentir viva o suficiente. Aquele momento, que a maior parte das pessoas passa, e nos sentimos ocos por dentro, como se nada do que você tenha feito antes, tenha valido a pena, e todos os sacrifícios que faz agora não servirão para nada no futuro. O tempo e as pessoas sempre nos provam que estamos errados sobre isso e sobre um monte de coisas sobre o mundo.

A verdade é que o mundo gira muito rápido e se não fincarmos os pés bem fundo na terra, vamos ser lançados para fora do planeta e ficaremos orbitando em volta, sem nunca conseguir viver dentro dele de verdade. Nada é permanente ou absoluto, nada é eterno ou pretende ser – nem deveria ser. A mudança é fundamental para a evolução, e sem ela ficaríamos parados num mesmo lugar com medo do que pode nos atingir. A transição é o que nos faz mais fortes, é o que nos faz jogar tudo para o alto e recomeçar do zero – mesmo que não saibamos onde exatamente é esse ZERO.


Existem universos inteiros a serem descobertos dentro de nós mesmos e um mundo inteiro para ser visto lá fora. Mas veja lá... É para ser visto, não entendido ou julgado. Porque se você sair com o objetivo de entender e julgar tudo a partir da sua visão, pode acabar cego ou louco. É melhor apreciar e agradecer do que destruir e esbravejar. Veja, mas saiba o que vê... Enxergue de verdade, pois há muita sabedoria só de observar.

Ver faz parte de sentir e quando você sente, aí sim... Você vive.


Deixar de escrever e de desenhar e de pintar... Me fez lembrar isso. Não fiquei SEM me expressar por que quis. A inspiração foi embora assim como o tempo, aquele coelho branco que vive fugindo de nós, quando corremos atrás dele.

Tudo me deixou por um período, aquele momento de abstinência que experimentamos em algum momento de nossas vidas ou talvez, em vários momentos. Qualquer coisa que podemos “julgar” como importante um dia se vai e nos deixa vazio. COMPLETAMENTE vazio. Mas como não podemos entender o mundo, muito menos a vida em si. Nada e nem ninguém fica vazio por muito tempo, e às vezes a necessidade da abstinência está justamente em esvaziar tudo o que  julgamos “importante” para nos encher novamente - e lentamente - de tudo que é REALMENTE importante.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Você acredita em milagres?


Para quem procura uma leitura agradável  e uma companhia inseparável para uma viagem longa ou uma tarde preguiçosa, a primeira edição traduzida para o português de Morte e Vida de Charlie St. Cloud é perfeita. À primeira impressão e, talvez uma insensível, a história parece leve e despretensiosa, quase adolescente. porém, não é o que se concluí após uma reflexão das 304 páginas deste livro.

Antes de conquistar a crítica que elevou Morte e Vida de Charlie St. Cloud como best-seller nos Estados Unidos e estar na lista dos mais vendidos do The New York Times, o jornalista Ben Sherwood, formado nas Universidades de Harward e Oxford, começou a carreira na ABC News em Nova York e hoje é produtor executivo da NBC. Sherwood já recebeu o Emmy pela cobertura da guerra em Kosovo, e o prêmio Edward R. Murrow, pela edição de notícias. Atualmente, mora em Nova York e escreve seu segundo romance.

A história que o consagrou como escritor, começa em uma pacata vila de pescadores da Nova Inglaterra, onde o jovem Charlie St. Cloud resolve trabalhar no cemitério em que Sam, seu irmão mais novo, morto em um acidente de carro, está enterrado. Charlie foi o único sobrevivente do acidente e recebe o dom de ver  e conversar com o espírito de Sam. Para ficar mais perto de seu irmão, ele deixa seus sonhos para trás e abdica de viver sua vida de forma completa. No entanto, a chegada de Tess Carol, uma mulher independente que está treinando para navegar sozinha ao redor do mundo em um veleiro, neste mundo tão particular, os obriga a fazer escolhas.



Com uma lição de fé e desapego, esta é uma obra que nos faz refletir sobre a ordem das coisas e a razão para que elas aconteçam. É impossível não se emocionar com o desenrolar de uma trama bem feita e detalhada, ainda mais quando ela traz considerações tão particulares. Até que ponto você está disposto a se desapegar de seu passado e sua culpa? E quão fundo você quer chegar para descobrir um pouco mais sobre si mesmo?

 Às vezes a vida nos coloca naquela situação que é preciso fazer alguma coisa, sair da zona de conforto, enfrentar a realidade e assumir a missão que nos é dada. Mais do que entretenimento St. Cloud carrega nossas dúvidas, inseguranças e angústias da vida, mas principalmente, joga em nosso colo aquela pergunta que está além do pensamento racional e dos olhos humanos: Você acredita em milagres?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Batalha de Argel

"Começar uma revolução é fácil, difícil é continuá-la e mais difícil ainda é vencê-la", essa é uma das frases de A  Batalha de Argel. Baseado em fatos reais e com a fotografia envolvente de Marcello Gatti, a obra de Gillo Pontecorvo carrega o peso político das vivências de seu próprio diretor. O falecido cineasta italiano, nascido em Pisa, emigrou para Paris no período da ditadura fascista de Mussolini. Passou a fazer contato com a resistência italiana, e se filiou ao Partido Comunista em 1941. Mesmo graduado em química, trabalhou como jornalista e dirigiu a revista comunista quinzenal "Pattuglia" (Patrulha).

A partir dos anos 50, dedicou-se ao cinema, dirigindo documentários. Sua estreia na ficção foi com Giovanna, episódio do filme Die Vind Rose, (1954) sobre uma operária da indústria têxtil. Dirigiu também A Grande Estrada Azul (1957), Kapò (1959), Queimada! (1969), Ogro (1980), O adeus a Enrico Berlinguer (1984), Firenze, il nostro domani (2003). Entre 1992 a 1996, Pontecorvo foi o diretor do Festival de Cinema de Veneza.

Em 1965, foi a vez de A Batalha de Argel. O filme se passa na cidade de Argel, na Argélia. entre 1954 a 1962, durante  o período de transição entre o colonialismo francês e a independência argeliana. Uma cidade que se divide  entre a Casbah e o bairro europeu, mas essa divisão não é só territorial, ela é principalmente cultural, já que a Argélia sofre com o colonialismo francês há 130 anos.

É neste cenário de conflito que nasce o grupo de resistência FLN (Frente de Libertação Nacional) com os chefes Omar Ali ( Ali La Poente), Jaffar, Ramel e Si Murad. Mostrando as ações de ambos os lados, o filme apresenta todas as formas de violência disponíveis em uma época de conflito, sejam os métodos de tortura e prisão, como os de atentados a civis.


Sem eleger nenhum personagem como principal, a obra resolve dar um panorama quase documental dos chefes envolvidos, tanto os "cabeças" da organização clandestina, como o experiente Coronel Mathieu, escolhido especialmente para "lidar" com o conflito. 

Os 117 minutos e a imagem bem antiga de A Batalha de Argel pode cansar um pouco, principalmente na primeira parte em que os personagens e o contexto é apresentado. Porém, do meio para o final, os paralelos com a nossa própria história e com os conflitos contemporâneos prendem mais a atenção, levando os espectadores a uma reflexão real de que o cinema não tem tempo de validade.

A Batalha de Argel venceu o Grande Prêmio do Festival de Veneza, além de ter sido indicado a três Oscars, como melhor roteiro original, melhor diretor e melhor filme estrangeiro.

Ficha Técnica:
A Batalha de Argel (La Battaglia di Algeri, Argélia/Itália, 1965 - Casbah Films e Igor Film)
Longa-metragem, 117 min.Direção: Gillo Pontecorvo; Roteiro: Gillo Pontecorvo e Franco Solinas
Música: Ennio Moricone e Gillo Pontecorvo; Fotografia: Marcello Gatti
Elenco:  Brahim Haggiag, Jean martin, Yacef Saadi, Samia kerbash, Ugo Paletti, Fusia El Kader, Mohamed Ben Kassen.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Eterna Estrada

A história de um padre andarilho e suas marcas deixadas na Região

Parte 7 - Final

Assim como sua missão, Anchieta não via limites para suas andanças, tanto que em uma carta escrita em março de 1555, ele conta aos irmãos de Coimbra, "aprendi cá um ofício, que me ensinou a necessidade, que é fazer alpargatas, e sou já bom mester; e tenho feito muitas para os irmãos, porque não se pode cá andar pelos matos com sapatos de couro".

Sua experiência o levou à terras distantes e diversas vilas, como a que se formou onde atualmente está a cidade de Peruíbe. Lá foi construído pelos índios o Mosteiro de São João Batista, que se tornou um ponto importante de catequese,além de pouso e abastecimento de viajantes. Anchieta esteve por aquelas bandas, alguns dias que antecederam dua ida à aldeia de Iperog, em missão de preparo para o armistício com os Tupinambás de Ubatuba. Hoje, o Mosteiro é conhecido por Ruínas do Abarebebê, em referência ao Padre Leonardo Nunes, também chamado de Padre Voador.

Enter suas caminhadas chegou à São Paulo, Rio de Janeiro e enfim em Espírito Santo, onde fechou os olhos pela última vez aos 63 anos, no dia nove de junho de 1597, na cidade de Reritiba. Atribui-se a colonização desta região capixaba à Padre Anchieta, que no decorrer de uma viagem em 1569, fundou a povoação. A vila foi elevada à categoria de cidade somente em 1887, recebendo assim o nome que continua até hoje: Anchieta.

Para onde quer que se vá o nome do jesuíta está lá, dessa forma todos os caminhos levam ao padre. Um bom exemplo é a via Anchieta, principal ligação para nada menos que o litoral sul de São Paulo. Tornando, assim, impossível não encontrar com o personagem em alguma esquina.

Uma avenida em Peruíbe; uma praça em Praia Grande; um bairro em Itanhaém e uma rua em Santos, São Vicente e Mongaguá. Um caminho e um destino, sua missão de andarilho permanece subentendida e eternizada por uma estrada.

Porém, cinco séculos depois da passagem de Padre José de Anchieta pela Região, suas pegadas marcadas nas areias das praias das cidades, hoje somem com as ondas da modernidade.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

À espera de um milagre

A história de um padre andarilho e suas marcas deixadas na Região

Parte 6

Seguindo por um caminho desconhecido e longo, passo por rios e atravesso pontes, lá fora a cidade movimentada se transforma em mata fechada, salvo por algumas ruas e casas que aparecem de vez em quando. Para chegar até a única Paróquia do Beato José de Anchieta na Região, fundada em 1994 vou até a Área Continental de São Vicente, no bairro do Humaitá.

Novamente me deparo diante da paróquia, com uma escultura de Anchieta, com a onça aos seus pés e o índio ao seu lado, representando a época e a terra selvagem onde os missionários trabalhavam. À espera do pároco, sigo para a igreja vazia, tomada pelo silêncio profundo e pela luz fraca que entra pelas janelas. A construção é simples, mas a delicadeza do altar feito em mosaico de azulejos pequenos dá o toque único e original ao local.

Padre Aloísio Antônio da Silva me recebe já com um material separado, afinal não é a primeira vez que querem fazer uma reportagem sobre o assunto. Assim, acabo recebendo de presente um livreto criado em comemoração aos 25 anos da beatificação de Padre José de Anchieta, o título é interessante: O Padre Anchieta está à sua espera! Mas, depois de conversar com o pároco percebo que na verdade, todos estão à espera de um milagre, até mesmo Anchieta.

“Estamos rezando sempre com todos os fiéis para que mais um milagre seja alcançado e seja reconhecido pela Igreja, para que assim o nosso beato se torne santo”, conta Padre Aloísio. Com fiéis da própria comunidade, a Paróquia realiza novenas e eventos no bairro como uma forma de divulgar a santidade do jesuíta, já que a parte mais conhecida de Anchieta está voltada à cultura, ao turismo e à história.

Há dez anos comandando a Paróquia, Padre Aloísio acredita que o processo de canonização do jesuíta está sendo feito, mas encontra muita dificuldade, já que a obra de evangelização veio para o Brasil com a cruz e a espada.

Houve muitas mortes de índios e guerras numa época completamente selvagem, com missionários e conquistadores trabalhando juntos. “O problema é que perguntam ao Anchieta: você estava no meio de tudo isso e o que fez? Por causa disso, a obra dos jesuítas é tão criticada e a santificação de Anchieta vista tão negativamente”, explica o pároco.

Entre pausas e reflexões, Padre Aloísio confessa que muitos missionários superiores à Anchieta tinham uma visão dominadora e ambiciosa, mas lembra que com o passar do tempo ele acabou rompendo com essa ordem, indo viver entre os índios durante muito tempo, para que assim pudesse continuar sua missão.

Para a pequena igreja e sua comunidade, Padre Anchieta já é considerado um santo, e em passos lentos e discretos tenta buscar uma visibilidade maior para o beato, espalhando o processo de canonização aos quatro ventos e rezando para que os pedidos sejam atendidos.

Só mais uma pedra

A história de um padre andarilho e suas marcas deixadas na Região


Parte 5

Uma notícia velha de um jornal local em sua versão online, uma pequena nota sem foto me chamou a atenção. A matéria era de janeiro de 2006 e uma pedra fundamental tinha sido inaugurada em um terreno na Vila Mirim, Praia Grande, local onde se tornaria em quatro anos um grande Santuário ao Padre Anchieta.

Quatro anos depois nos levaria exatamente a 2010 e onde estaria o Santuário?

Não precisei de grandes esforços para encontrar o projeto “Caminhos de Anchieta” de autoria da AGEM (Agência Metropolitana da Baixada Santista), da CANAN (Associação Pró-canonização de Anchieta), do CONDESB (Conselho de Desenvolvimento da Baixada Santista) e da Secretaria de Estado de Turismo.

Logo no início do documento é apresentado o objetivo do projeto que procura resgatar o turismo religioso na Região, contribuindo para o processo de canonização do Padre Anchieta, possibilitando o desenvolvimento social e econômico, com a geração de empregos.

O Santuário em Praia Grande seria o ponto central de rotas de peregrinação em todo o litoral paulista, refazendo os passos da vida e obra de Anchieta por meio de atrativos históricos, naturais ou construídos. No local ainda seria criado um Centro de Estudos, reunindo todas as obras sobre o assunto.
Abandonado, mas oficialmente adiado o “Caminhos de Anchieta” foi vítima da burocracia e da falta de envolvimento em questões metropolitanas. É o que deixou claro a arquiteta e diretora técnica III da AGEM, Tamara Gakiya, “o projeto do santuário ficou parado depois da mudança da diretoria, houve um conflito de interesses. Para que ele seja reativado é preciso o envolvimento de muito mais gente, não somente da Agência, como também da Secretaria de Turismo do Estado e da Prefeitura de Praia Grande”.
Mesmo que alguns tenham desistido, outros ainda seguem acompanhando o assunto. Tamara acrescenta que a AGEM ainda vem participando de reuniões promovidas pela Associação Pró-canonização de Anchieta (CANAN), com sede em São Paulo, mas não sabe dizer em que pé estão as discussões.
O projeto era fantástico e talvez perfeito de mais, afinal, quando a esmola é demais o santo desconfia. Por enquanto, a pedra fundamental inaugurada se tornou só mais uma em meio ao mato do terreno esquecido.


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Perdido no jardim

A história de um padre andarilho e suas marcas deixadas na Região

Parte 4

Seguir os passos de Anchieta talvez seja mais fácil do que encontrar informações sobre a localização exata de seus monumentos. Pude comprovar isso quando estive em Santos, sob o calor intenso, o cansaço e a fome gritante, busquei desesperadamente por algum sinal divino que indicasse o tão esperado i de informação.

Com a certeza da credibilidade de minha fonte, fui para a ponta da praia, na Praça do Aquário. Encantada com tantas atrações seja natural ou criada pelo homem, me perdi entre fotos, quadros, flores, peixes, performances de uma estátua viva e as cenas curiosas das pessoas que acendiam velas aos pés de estátua de Cristo, afinal de contas, estávamos no feriado de Finados. E eu esqueci completamente o verdadeiro objetivo de estar naquele lugar.

No meio do caminho para outro destino turístico da cidade, estanquei na rua. Meu Deus, o Padre Anchieta! Minha companheira de viagem suspirou e girou os calcanhares. “Vamos pedir informação. Não estamos longe, alguém por aqui deve saber onde fica exatamente a estátua”.

Alguém deveria saber. Para cada um que perguntamos o braço apontava para direções completamente diferentes. Seguir em frente, voltar ou pegar um ônibus para chegar a lugar nenhum. Por falta de opções voltamos ao Aquário, onde encontramos um guichê de informação tão discreto e mal sinalizado que se confundia com a bilheteria da atração.

Dez, quinze, talvez vinte minutos esperando o atendente procurar em pastas de arquivos, perguntar para moça ao lado, até se render a internet. “Vocês estão com pressa?” Precisei me conter para não dizer que tinha rodado uns 90 km só para ver o monumento. Enfim, o rapaz nos disse que era só dar a volta, a estátua estava do outro lado do Aquário. Pensei que ele talvez nunca tivesse saído d guichê. E todos deviam estar se perguntando o que duas garotas faziam com um mapa de Santos em espanhol, procurando um monumento.



 
O problema é que já tínhamos estado do outro lado da praça e a única estátua que vimos foi de um pescador. “Não, é depois do pescador, siga em frente. É no fim da praça”. Pobre Padre Anchieta! No fim da praça. Ninguém chegava até lá, talvez alguns ciclistas ousassem virar a cabeça na curva da ciclovia e admirar personagem em cena tão admirável.

Idealizado para a comemoração do IV Centenário da morte de Anchieta, a imagem foi inaugurada em 25 de janeiro de 1961 e... Não. A estátua estava esquecida, espremida entre carros, bicicletas, edifícios, em frente ao mar, isolada em um pedaço do jardim.

De todas as outras cenas que presenciei com o personagem, aquela era uma das mais belas que me fazia lembrar parte da citação do Livro de Marcos que vi em Itanhaém “pregai o evangelho a toda criatura”. Com uma enorme cruz atrás de si, Anchieta tem os olhos voltados para o céu. A sua frente, prontos para receber os ensinamentos, um índio e uma onça. Nativos, selvagens, europeus ou animais, todos deveriam receber o mesmo tratamento.

Mesmo sem o público amplo, Anchieta continua a pregar para seu índio e sua onça no fim da Praça do Aquário. Porém, ali esquecido, ele se tornou só mais um monumento dentre tantos outros que enfeitam as praças e os jardins de Santos. E que ninguém sabe quem era ou o que fez.

Entre a fé e o turismo

A história de um padre andarilho e suas marcas deixadas na Região

Parte 3

“Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16-15). Entre muitas citações da bíblia pregadas nas paredes do Convento de Nossa Senhora da Conceição, talvez esta seja a que mais se aproxima dos desígnios de Anchieta.

Para visitar a cidade no meio de um feriado é preciso muita paciência, já que todos os lugares estão lotados, mas estes dias sazonais também nos reservam grandes surpresas. Em busca dos caminhos de Anchieta, em Itanhaém, acabei encontrando índios, vestidos como reza a tradição e nossa imaginação, dançando e tocando flautas na Praça da Igreja Matriz de Sant’ Anna, a promover seus CD’s e sua arte. O mesmo local, onde há séculos, o padre andarilho pregava para nativos e portugueses.

Em suas andanças, Anchieta seguia muito para a vila de Itanhaém, fundada em 22 de abril de 1532 por Martin Afonso de Souza. Era na igreja da cidade, que ele costumava rezar as missas diante da imagem de Nossa Senhora da Conceição. Sua fé na santa era tão grande, que posteriormente ela passou a ser também conhecida como a Virgem de Anchieta. A imagem, hoje, abençoa a entrada da Igreja Matriz.

Lá e novamente, esculpida em bronze por Luiz Morrone em 1945 do padre está na praça. Crianças vêm abraçá-lo perguntado para seus pais, que riem de suas inocências, se este é de verdade. Ninguém que passe pela praça deixa de olhar, ou registrar em uma foto, a imagem daquele que teve tanta influência para a propagação dos ensinamentos católicos.



Com um crucifixo preso a cintura, um livro de baixo do braço, uma inscrição “não preciso dizer quem sou” e uma expressão séria, me perguntei, ao me deparar com a escultura, se este realmente era o padre que procurava retratado tantas vezes pela humildade e o semblante sereno. Porém, nesta imagem, ele estava caminhando com o passo reto e forte, de alguém que sabe exatamente aonde quer chegar, e talvez uma expressão sorridente não combinasse com um personagem tão determinado em sua caminhada, foi então que resolvi continuar a minha.

Subindo a ladeira que dá no Convento, se pode admirar a Igreja e toda a praça do Centro Histórico da cidade. E do alto de uma das janelas da capela, observar a parte original de uma construção secular, ao som da música dos Beatles “Let be”, tocada pelas flautas dos índios na praça, é como sentir de perto o choque cultural da modernidade e ao mesmo tempo, viajar de volta ao passado.

Juntamente com a fundação de Itanhaém, em 1533 foi construída no Morro, uma ermida em honra de Nossa Senhora da Conceição, um dos mais antigos santuários do Brasil, o qual serviu de Matriz até depois de 1639. Durante muitos anos, entre idas e vindas, o local foi comandado por franciscanos, tanto que um deles, o frei Miguel, iniciou a atual construção em 1699 e concluída em 1713.

Pouco mais de cem anos depois, grande parte do convento foi destruída por um incêndio, conta a história, que um frei irresponsável com um facho inflamado fazia guerra com os morcegos e foi o causador do acidente. Entre restaurações e falta de recursos os franciscanos deixam o convento em 1971 aos cuidados das Servas de Jesus Sacerdote, assumindo elas toda a responsabilidade pelo patrimônio.

Representadas em quadros e retratos, as imagens de Padre Anchieta, mostram a devoção do lugar, com uma mistura de fé e mistérios que o cercam. Nunca se sabe exatamente o que vamos encontrar ao abrir a porta, ou ao subir mais um lance de escada.

A questão mais perturbadora é de como um pelourinho, que conserva algumas correntes, foi parar dentro de um convento, e como um lugar sagrado pode ser tão carregado e ao mesmo tempo tão fascinante. As placas indicam que o pelourinho era usado em 1561 na praça da cidade e que em 1971 foi encontrado dentro do santuário e remontado no local.

Com os olhos curiosos e até intrometidos, me pergunto, algumas vezes, se poderia mesmo estar ali, abrir aquela porta ou entrar naquele quarto. Em outras partes, principalmente as externas, as paredes em ruínas, tomadas pelas plantas, pelas flores tímidas e pelas árvores frondosas e antigas deram um ar de jardim secreto. ­O cenário descoberto foi triunfante.

Os caminhos de Anchieta de Itanhaém saem do centro histórico e seguem para a praia onde está localizada a Passarela de Anchieta, que conta as datas das partes mais importantes de sua vida, ligando a Praia dos Sonhos a Praia da Gruta.

No final do percurso está a Cama de Anchieta, onde conta-se que o jesuíta ali descansava e refletia. Para Padre Anchieta o que resta é ser a atração turística e aguardar humildemente que alguém o reconheça mais do que um padre importante, procurando saber sua verdadeira história. Enquanto isso, placas e monumentos se deterioram e são atacados por vândalos, como as pichações nas rochas que formam a Cama de Anchieta.

Centenas de pessoas passam pelo local, alguns param e se ajoelham dentro da gruta em sinal de fé, em frente à imagem de Nossa Senhora de Lourdes. Deixando ali, seus pedidos, agradecimentos e oferendas. Outros animados continuam a caminhada.

Da passagem de madeira cheia de turistas observei de longe os painéis montados nos reservatórios da Sabesp, que retratam cenas da vida do jesuíta em meio aos índios ou escrevendo o poema da Virgem nas areias da praia. Como chegar até eles e conseguir uma perspectiva melhor era o grande problema.

Nas barraquinhas de ambulantes que se aglomeram no início da passagem aproveitando o movimento do local, fui informada que as únicas formas de subir eram por uma rua lateral abandonada ou por uma trilha bem visível a todos, porém íngreme, lamacenta e sem nenhum apoio para as mãos. Qualquer tropeço, e eu rolaria morro a baixo.

A trilha não era convidativa para alguém desastrada e sozinha, mas a forma mais 'segura' de chegar perto dos painéis era subir o morro dos Paranambuco. Porém, tudo compensa, até as manchas no tênis branco, quando me lembrei da célebre frase que diz que um bom jornalista se conhece pela sola dos sapatos.

As dificuldades da subida compensam depois de admirar do alto, toda a extensão dos 220 metros de comprimento por 1,60 de largura da Passagem de Anchieta que contorna as rochas, bem próximas do mar de ondas bravas. De cima, a dimensão dos painéis se torna visível e o local que mistura fé, história e turismo parece perfeito.

Do Povo para o Povo


A história de um padre andarilho e suas marcas deixadas na Região

Parte 2

As praças. Parece o melhor lugar para abrigar eternamente um personagem tão ligado ao povo. São em lugares assim, movimentados, cheios de pessoas, risadas, carros, que estão instalados os monumentos em homenagem ao jesuíta. Estátuas que observam atentas, tudo o que acontece ao redor com os olhos sábios de quem carrega a história e se adapta às mudanças.

Sob a luz fraca de um entardecer, Anchieta escreve permanentemente na areia a mensagem “Só a heróis se compete tanta glória”, permanecendo assim em uma das poses mais conhecidas de sua biografia, quando na praia de Iperog escreveu na areia o Poema à Virgem, que só depois foi transcrito.

Dessa forma, ele acompanha o crescimento da movimentada São Vicente, sua tão amada vila, aonde chegou em 1553 e permaneceu por muitos anos. Em tamanho natural, feito de fibra de vidro, ele foi colocado na praça junto a Biquinha de Anchieta, existente desde sua chegada e que foi uma das principais fontes de água da população vicentina durante séculos.

Lá, o jesuíta se voltou ao povo mais simples e explicou por meio do teatro, a essência dos ensinamentos cristãos. Atualmente, é o ponto turístico mais conhecido e visitado da cidade, localizado próximo de onde estava o Colégio de São Vicente.



A Capitania foi o palco de um de seus mais famosos autos, o Auto da Pregação Universal. Ele foi encenado pela primeira vez no Natal de 1561, mas só em 1576 é que a apresentação chegou até São Vicente. Conta-se que no dia uma forte tempestade se aproximava, ameaçando a encenação do auto, prometendo Anchieta que a chuva não cairia. A promessa se cumpriu e a apresentação durou três horas sem nenhuma gota chuva.

Outros textos foram criados, usando o recurso de representações artísticas e teatrais, pois traziam para a catequese a oportunidade de aumentar o interesse dos índios, já que os autos representavam cenas do cotidiano. Além de aproveitar os rituais praticados pelos indígenas, acrescentando a eles referências às festas cristãs.

Um dos temas centrais do Auto da Pregação Universal, com o diálogo entre os demônios, representa bem os rituais das tribos que temiam os espíritos malignos que perturbavam os nativos na floresta.

Porém, não coube à Anchieta somente o teatro, um de seus trabalhos mais admirados e utilizados como base de estudo até os dias atuais é a Gramática da Língua mais Falada no Brasil. Na obra, ele faz uma pesquisa aprofundada sobre o tupi, no entanto como mostra um trecho de uma carta escrita em 31 de maio de 1560, o padre não tinha noção da repercussão e nem da contribuição que estava fazendo.

“Quanto à língua, eu estou nela algum tanto adiante, ainda que é muito pouco para o que soubera, se me não ocuparam em ensinar gramática. Todavia, tenho toda a maneira dela por arte, e para mim tenho entendido quase todo o modo dela. Não a ponho em arte porque não há a quem aproveite. Somente aproveito-me eu dela, e aproveitar-se-ão os que de lá vierem, que souberem gramática”.

domingo, 15 de maio de 2011

Pegadas na Areia

A história de um padre andarilho e suas marcas deixadas na Região

Parte 1

Sentada no chão da biblioteca e perdida em meio a livros de páginas amareladas e cheirando a mofo, busco informações soltas em cartas ou documentos, que se tornam peças de um quebra-cabeça histórico. Cada peça encontrada, completa o trajeto percorrido de um deles, a partir de pegadas deixadas através dos séculos, é o desafio encarado.

Atravessar várias cidades em um mesmo dia, já não é nenhum novidade para quem mora em Peruíbe, trabalha em São Vicente e estuda em Santos. Ver a Região pela janela de um ônibus ou de um carro, cruzando uma rodovia asfaltada e duplicada tem lá suas vantagens. Porém, fazer o mesmo caminho, a pé dentro de uma mata fechada e selvagem, é outra história. Talvez, a história de um padre.

Em meio à selva, os pés velozes e descalços do jovem jesuíta, nascido a 19 de março de 1534, em Tenerife, uma das Ilhas Canárias dominadas pela Espanha, percorreram o litoral brasileiro, espalhando os ensinamentos cristãos e absorvendo a cultura indígena. José de Anchieta abriu seu próprio caminho no meio da mata, subindo a muralha que conhecemos como a Serra do Mar.


O padre, considerado precursor da cultura brasileira, ensinou por meio do teatro e da poesia, índios e portugueses, além de aprender a medicina dos nativos. Para produzir sua obra que sobrevive até hoje, Anchieta escolheu o espanhol, o português e o tupi.

Os pés do padre, do mestre e do padre, deixaram marcas por onde passou. Entre os sertões de Itanhaém e as serras de Paranapiacaba, o jesuíta construiu colégios, converteu nativos, ajudou a fundar as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, e a criar o que definimos por Costa da Mata Atlântica. Seu caminho é eternizado pelos monumentos que foram erguidos para lembrar sua passagem e influência na Região.

Seu trabalho foi admirado por alguns escritores, que acabaram se tornando biógrafos de sua vida, como o professor, conferencista e historiador Padre Hélio Abranches Vioti. Em sua obra descreve que a vida de Anchieta foi vivida "em favor da elevação intelectual, moral e religiosa". Outro escritor católico, o Padre Armando Cardoso, autor do livro "O Bem-Aventurado Anchieta", considera que o padre "tornou-se o símbolo da educação cristã e continua a ser um estímulo para todos os que trabalham na formação da juventude."

Não foram apenas padres que prestaram homenagem à Anchieta, contemporâneos ou históricos escritores não se abstiveram de reverenciar a obra e o personagem histórico. O conhecido escritor e jornalista Euclides da Cunha escreveu: "(A Companhia de Jesus) Ligou à humanidade, emergente da agitação fecunda da Idade Média, um povo inteiro - espíritos jungidos a um fetichismo deprimente, forças perdidas nas correrias guerreiras dos sertões...E para esta empresa imensa teve entre nós uma alma simples, sem violentos ímpetos de heroicidade - amplíssima e casta - iluminada pela irradiação serena do ideal."

Mais próximo do nosso tempo, Cecília Meireles criou um poema contando a história do padre jesuíta, o trecho mostra o envolvimento e comprometimento de Anchieta com os fundamentos cristãos. "Vede Anchietá, o santo, / a tratar de chagas, / a enxugar o pranto/ do índio sofredor, a aprender-lhe o idioma, / a ensinar-lhe amor."

A admiração não é somente sobre o que Padre Anchieta fez, mas principalmente como fez. Como um professor talentoso buscou novas formas de ensinar e cativar seu público? O historiador e sociólogo, Nelson Werneck Sodré escreve que o jesuíta preferiu descer à praça e conquistar um público mais amplo para transmitir seus ensinamentos. E lá ele permanece até hoje.


"Qual o seu mundo Chico Xavier?"

Com esta pergunta, o repórter José Hamilton Ribeiro começa a matéria, capa da edição de novembro de 1971 da extinta revista Realidade, com 16 páginas, várias fotos e pesquisas relacionadas ao espiritismo e aos estudos da atividade cerebral de Francisco Cândido Xavier.

O repórter e editor, Hamilton Ribeiro fez mais do que apurar dados e garantir a veracidade das informações passadas na reportagem, mais do que uma entrevista e uma matéria cheia de aspas. Ele esteve em Minas Gerais, acompanhou as sessões e esperou horas para conversar com Chico e conseguir sua mensagem psicografada. Hamilton Ribeiro fez parte da história, se tornou um personagem e sem sua vivência seria impossível descrever com a riqueza de detalhes, que faz com que o leitor se transporte até Uberaba, a Meca do espiritismo.


Vanessa Candia, em seu texto Antropocentrismo literário, explica que estes tipos de narrativas são inspiradas pela técnica norte-americana new journalism, e que o trabalho do jornalista era participar da vida do personagem, de maneira que o próprio repórter se tornava parte da história.

O próprio Hamilton Ribeiro, ganhador de três prêmios Esso, um dos pioneiros e que mais tarde também faria uma tentativa de reerguer a revista Realidade, como conta o texto de Candia, viveu na pele o new journalism enquanto cobria a Guerra do Vietnã. Sua matéria de maio de 1968, "Estive na Guerra" descreveu todo o seu sofrimento e a recuperação de parte da perna esquerda, perdida num acidente com uma mina terrestre.

Mas não é preciso tanto para usar a técnica que mistura jornalismo e literatura, afinal as revistas acolhiam bem estas narrativas. A importância da Realidade se deu, entre muitas outras coisas, pela presença de "um esforço de individuação textual, um franco exercício criativo com postura aderente a procedimentos de criação literária", como descreve Marcelo Bulhões, em Jornalismo e Literatura em Convergência. Certamente, em cada texto, o tom íntimo e único de cada repórter deixava-se transparecer, afinal cada vivência é única e cada percepção de um fato, local ou pessoa é íntima.

Não foi somente a escrita, que foi importada dos Estados Unidos, mas também os apelos visuais na diagramação de revistas e jornais tornaram a fotografia, presença marcante nas reportagens. Este, aliás, era o ponto forte da Realidade, que com fotos grandes reforçavam ainda mais o tema.

Na reportagem sobre Chico Xavier, as fotos fazem toda a diferença, a foto maior estampada na capa e outra muito parecida usada na abertura da matéria dão ao leitor a primeira impressão do personagem: a sua concentração. Porém, nas páginas seguintes aparecem a humildade, o humor, a simplicidade e a caridade, que se tornam claras através das fotografias e também do texto, o ti Chico (termo usado em Minas e na matéria), passa essa sensação.

No entanto, há no texto um elemento que do começo ao fim prende a atenção e desperta a curiosidade do leitor, o próprio repórter faz dois pedidos para pessoas distintas e os coloca entre os seiscentos pedidos do dia. A curiosidade do repórter, sobre a mensagem psicografada passa a ser a curiosidade do leitor.Este elemento do texto só é sanado no fim da reportagem, quando deixa claro que tudo é uma questão de fé.